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Estadão- Dá para o BC não perseguir a meta de 2022?

Com a disparada da inflação este ano, em razão de uma profusão de choques – como alta de commodities e do dólar, estrangulamento de cadeias produtivas, desvio de consumo de serviços para bens, choque energético –, vai ficar muito difícil levar o IPCA para a meta de 3,5% até o fim de 2022.

Segundo o Focus, o sistema de coleta de expectativas do Banco Central, o IPCA (mediana) deve fechar em 8,35% em 2021. Há quem veja o índice chegando ao intervalo entre 8,5% e 9%.

Fica claro que trazer o IPCA para 3,5% ao fim do ano que vem deve exigir uma abordagem drástica de política monetária. A expectativa mediana do IPCA para 2022 está em 4,1%, e vem subindo há nove semanas. O mercado, portanto, aposta em inflação acima da meta no próximo ano.

Diante da magnitude e da multiplicidade dos choques que fizeram a inflação subir tão fortemente em 2021, seria compreensível que o processo de desinflação, de volta para a trajetória de metas, tomasse mais de um ano.

Em recente artigo no Blog do Ibre, Bráulio Borges, economista sênior da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, defende que o BC deveria formalmente alongar o horizonte de convergência e adotar uma meta ajustada para 2022.

A ideia faz sentido, para Samuel Pessoa, sócio diretor do Julius Baer Family Office e colega de Borges no Ibre. Pessoa não fala necessariamente de um anúncio formal de uma meta intermediária, mas de a comunicação do BC de alguma forma deixar patente que a mira se voltou para 2023, quando a meta é de 3,25%.

Mas o próprio economista do Julius Baer coloca a grande dificuldade dessa eventual operação delicada de comunicação por parte do BC: e se, ao deixar claro que a meta de 3,5% em 2022 não está mais sendo perseguida a ferro e fogo, a autoridade monetária desancorar também as expectativas para 2023, que por enquanto permanecem na meta de 3,25%?

Um profissional de mercado, atento analista da política monetária, observa que, em tese, quando choques adversos de oferta muito fortes causam grande desvio da meta, a cartilha do regime de metas dá alguma discricionariedade ao BC de administrar o processo de desinflação.

A regra brasileira diz que o mandato do BC também inclui, como objetivo secundário (o principal é inflação na meta) suavizar o impacto do ciclo econômico sobre o produto e o emprego.

Assim, para o a analista, mirar 2023 e não tentar trazer a todo custo o IPCA para a meta em 2022 “conceitualmente é uma possibilidade que tem de ser considerada”

Na prática, porém, a situação do BC brasileiro é muito delicada, e ele recomendaria que não seguisse o caminho mencionado acima.

Em primeiro lugar, parte da alta da inflação, cuja causa primeira foram os choques, deriva na sua visão de uma política monetária muito expansionista em 2020 (quando a Selic baixou até 2%), com efeito particularmente agudo pelo canal do câmbio, que se depreciou muito.

Adicionalmente, e talvez o mais importante, a inflação de 2023 também depende da política fiscal (inclusive pelo canal do câmbio também), sobre a qual existe uma enorme insegurança, com o presidente disputando reeleição e mal nas pesquisas.

Assim, transferir a âncora da meta de inflação de 2022 para 2023 quando o ano que vem já está desancorado em termos fiscais traria o risco de provocar já em 2022 muito mais inflação do que o prudente.

Isso, por sua vez, poderia puxar a inflação brasileira novamente para um nível resistente de médio e longo prazo, de 4,5% a 6% ao ano, após todo o esforço para trazê-la para o padrão mais saudável para emergentes de 3% a 3,5%.

Um problema adicional é que o BC sinalizou, na leitura do mercado, que não vai acelerar o ritmo do atual aperto monetário além de 1 ponto porcentual por reunião, o que faria com que a eventual “desistência” da meta de 2022 se combinasse com um momento de política monetária ainda frouxo.

O analista ainda lembra que Ilan Goldfajn, ex-presidente do BC, assumiu em 2016 com um IPCA que atingira 10,67% em 2015, e, sem meta ajustada e com uma postura dura de adiar por duas reuniões a redução da Selic, iniciou uma desinflação que permitiu que inflação e juros no Brasil atingissem mínimas históricas.

Há, porém, algumas diferenças entre 2016 e o momento atual. O próprio analista frisa que, com Ilan, a política fiscal ajudou a monetária, ao contrário do que ocorre agora.

Pessoa, por sua vez, vê na inflação acima de 10% em 2015 o efeito de liberação de preços artificialmente reprimidos até 2014 e ainda as reverberações de um mercado de trabalho muito aquecido no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Em outras palavras, o componente “choque de oferta” em 2016 seria bem menor do que hoje, o que tornaria a suavização da desinflação agora mais aceitável.

Mas o próprio Pessoa ressalva que teria dificuldade de escolher o caminho apropriado se estivesse na pele do Copom hoje, e que o risco de desancorar fortemente 2022, se a o BC passar a mirar somente 2023, é bastante real.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Acesse link da matéria no site do Estadão: https://economia.estadao.com.br/blogs/fernando-dantas/da-pro-bc-nao-perseguir-a-meta-de-2022/

 

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