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Jornal O Globo – ‘O papel do Estado será repensado após a crise do coronavírus’, diz gestor de fortunas

Paulo Pereira Miguel, sócio do Julius Baer Family Office, avalia que medidas do governo mitiga efeitos da pandemia, mas precisam alcançar logo as empresas

SÃO PAULO – A pandemia da Covid-19 vai fazer o mundo repensar o papel do Estado em relação a políticas públicas de saúde, infraestrutura e alocação de capitais. A crise permitirá saber o que faltou no enfrentamento da doença e se a alocação de capital foi eficaz. Para Paulo Pereira Miguel, sócio do Julius Baer Family Office, maior gestora independente de fortunas do país, com R$ 50 bilhões em ativos, o país está ‘dando um tiro de canhão’ para reativar a economia, mas as medidas não podem virar ‘um trem da alegria’ e os recursos têm que chegar a quem precisa.

Qualserá o impacto da pandemia na economia brasileira?

Esperamos uma retração entre 10% e 20% no segundo trimestre. Isso vai se traduzir numa queda entre 2% e 4% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano. O governo já anunciou medidas para mitigar o impacto e é preciso que os recursos cheguem rápido ao setor privado para preservação dos empregos. Tirando aquela MP desastrada (que previa suspensão do contrato de trabalho por 4 meses sem remuneração), será preciso flexibilizar os contratos de trabalho, mas com mecanismos de compensação.

Qual a sua avaliação das medidas?

Temos um espaço fiscal menor que os outros países. Não podemos deixar que as medidas virem um trem da alegria, com lobbies e pressão política, e fazer o dinheiro chegar a quem precisa. E o governo precisa reforçar os alicerces fiscais de longo prazo, sinalizar isso ao mercado. Não pode abandonar o teto de gastos. É preciso separar o que é o gasto emergencial do que são os pilares fiscais.

Há outras medidas que poderiam sertomadas?

O Banco Central (BC) foi agressivo na injeção de liquidez para tentar manter abertos canais de crédito. Mas foi tímido na política monetária. Poderia ter baixado ainda mais a taxa de juros. As expectativas de inflação estão caindo. Este ano, deve ficar em torno de 2%, abaixo da meta. Com juros mais baixos, o BC poderia reduzir os encargos financeiros das dívidas das empresas, já que muitas são roladas pelo CDI.

O pacote do governo será suficiente para garantir emprego?

O pacote está sendo calibrado para os próximos dois meses. As medidas fiscais equivalem a 3% ou 4% do PIB. É o primeiro passo. Vamos ver o que acontece. É importante a flexibilização dos contratos de trabalho com compensações aos trabalhadores. Se há demissões, o custo é muito grande para retomar os empregos depois. Há muita incerteza. Na China, que é a referência, as coisas começaram a ter liberação seletiva de seis a dez semanas depois do isolamento. Vamos aprender muito aqui nos próximos 30 dias. É preciso ir calibrando, já que não é um sistema perfeito. Vamos dar um tiro de canhão, o que pode ajudar alguém em demasia. Mas para outros, pode faltar.

Há risco de a crise na economia real virar um crise financeira,como em 2008?

A crise de 2008 foi como a lava escorrendo de um vulcão, lentamente. A crise atual veio de uma vez e paralisou a economia real. O risco de que chegue ao sistema financeiro existe, e alguns segmentos do mercado estão muito frágeis. Mas os bancos centrais e os governos estão entrando com linhas de crédito para garantir liquidez. Mas se isso não acontecer vamos precisar ver mais medidas. Vai depender da pandemia.

Que lição os países vão tirar dessa pandemia?

Muita coisa vai ser repensada, desde a infraestrutura dos sistemas de Saúde de cada país, ou medidas emergenciais que devem se tornar permanentes, como a renda mínima. O papel do estado será repensado para avaliar o que faltou no enfrentamento da pandemia. Em que setores o dinheiro público deve ser alocado? O liberalismo clássico está preocupado em corrigir falhas de mercado. Não há contradição com a ideia de reduzir o tamanho do Estado. É uma questão de governança.

Será possível aprovar alguma reforma estrutural este ano?

É difícil, mas a PEC Emergencial (que ajuda a reequilibrar as finanças do estado) pode avançar. O novo marco do saneamento também. O debate sobre a reforma Tributária, que deve ter o Congresso como protagonista, poderia começar no segundo semestre. O Executivo, que já não tinha protagonismo de liderança, vai ter dificuldades de aprovar suas pautas.

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